Eternamente Moçambique

Últimos dias em Moçambique. Passou rápido. Sábado, dia 23, estarei voltando para minha casa, a minha outra casa.

No começo, pensei que só iria passar um tempo longe dos pais e dos amigos. Seria uma prova de resistência, em que eu não aguentaria mais de dois meses sem querer voltar para o Brasil. Provavelmente, eu não iria comer doces, macarrão, nem veria televisão e computador por seis meses.

Nas véspera de vir para cá, minha tia disse que tinha um computador. Mais aliviado, me surgiu a ideia de contar minhas experiências na selva em um blog. O nome dele precisava passar ideia de que eu transformaria essas aventuras em textos: passaria tudo para a ponta do lápis.

Escolhido o nome do blog, e o post de apresentação, escrito ainda em São Paulo, explicando por que viajei à África, por que vim para Moçambique, deveria ainda chegar ao meu destino para ver o que iria ser relatado.

Quando sai do aeroporto, após um voô tenso, vejo que as ruas daqui são asfaltadas! — ou quase isso. Vejo ônibus com assentos individuais! — ou quase isso. Vejo a população usando farmácias! —, ou quase isso. Logo na chegada a Maputo, já havia descoberto o tema do meu blog: o que eu visse na rua e nos locais por onde passasse.

Depois, fui me matricular na escola, que me renderia diversos posts. Ser apresentado da forma mais escandalosa possível, dar uma queixada numa barra de madeira estrategicamente colocada na beira de uma quadra de esportes, ter descoberto diversas características do português moçambicano, e virar amigo de um menino surdo foram alguns exemplos. Também vi professores falando no celular durante a aula, tive que discutir com eles e com alunos, descobri o que bebem os jovens daqui, e, é claro, não fiquei isento do racismo.

No treino de futebol, “lutei” com uma cobra, quase morri em diversos momentos, e provei do patriotismo moçambicano. Isso tudo depois de me alimentar bem.

Também vi que nem todas as músicas daqui merecem ir para a Quinta Quente do Mosanblog. A boa marrabenta muitas vezes é substituída pelo funk moçambicano.

E tudo isso foi publicado aqui, no Na ponta do lápis.

Moçambique não foi aquela aventura com leões e pessoas mortas de fome que eu pensava que iria enfrentar. Aqui é um país, tem uma história recente, mas de muito sofrimento. Guerras, crises sérias, desastres naturais arrasadores. Tudo já aconteceu em Moçambique. Mesmo assim, o povo é alegre, batalhador, hospitaleiro, ou seja, é africano.

Me aborreci com muitas coisas daqui. Pensei em mudá-las, mas não fiz. Ninguém pediu para eu vir para cá. Os moçambicanos vivem dessa maneira há muito tempo, e não vai ser um adolescente estrangeiro que vai mudar as coisas de uma hora para outra.

Avaliando o que escrevi, concluo: a África é assim e assim vai continuar. Em alguns aspectos, incomoda o estrangeiro, mas em todos os aspectos, satisfaz o africano.

E não ousemos mudar isso.

Nota.: O blog não morre aqui. Do Brasil, escreverei mais experiências que passei aqui. A partir de sábado, dia 23, o Na ponta lápis terá uma redação brasileira.

Miragem

Xenofobia é um tema sério na África. Como os empregos são escassos em quase todos os países, o imigrante é perseguido pelos nativos por roubar trabalho deles. A situação ainda é mais grave para aqueles que imigram e se submetem a empregos mal remunerados, como acontece com os bolivianos no Brasil, por exemplo.

Viajei para a África do Sul recentemente. As cidades são muito bonitas, principalmente pela história que têm. Estão bem servidas de serviços, comércio, e estradas asfaltadas. No entanto, o índice de criminalidade é elevado, negros e brancos trocam farpas até hoje, e os casos de sequestros e assassinatos são frequentes nos subúrbios. Muitos crimes cometidos lá têm motivação xenofóbica.

No entanto, o moçambicano pensa que a África do Sul só é feita de casas e ruas lindas, e um monte de lojas à sua disposição. Esquecem o fato de que eles mesmos não são bem vistos naquele país, e que ali também há outros problemas. Os moçambicanos atentam apenas aos bens materiais sulafricanos. (Igualzinho à relação “brasileiro ♥ EUA”, mas esse é um assunto para outro blog. Aqui, o negócio é África.)

Johannesburgo está cheia de moçambicanos. Submetendo-se a trabalhos mal pagos, vivem na periferia, porque não têm dinheiro para viver onde eles queriam, isto é, no centro da cidade. Refugiaram-se para uma zona atrás do bairro-cidade de Soweto. Fizeram ali uma espécie de favela. Todos eles tinham pretensões de viver melhor no país vizinho, e arriscaram tudo indo para lá.

Uma das coisas que os meus amigos da escola aqui em Moçambique mais gostam de jogar na minha cara brasileira é que o país deles não tem fama de ser violento, e as pessoas tentam ganhar a vida da forma mais pacífica possível. Diferente do Morro do Alemão, único ponto do Rio de Janeiro de que eles ouvem falar.

Hoje, os imigrantes moçambicanos na África do Sul contentam-se em viver numa zona mais pobre que Soweto (que já é bem pobre), sem água, sem luz, sem saneamento, sendo perseguidos e com muita criminalidade, que eles tanto se orgulhavam de não ter em seu país.

Os funks moçambicanos

Quando um estrangeiro viaja ao Brasil, vai com a ideia de que lá só se ouve Tom Jobim, Gilberto Gil e samba. Depois descobrem o podre da nossa música, como os funks e as suas letras depreciativas. Voltam para seus países com a imagem de que toda música feita no Brasil conta a história de um cara batendo ou paquerando uma mulher, e os faz esquecer os Tons Jobins, Gilbertos Gils, os bons sambas…

É exatamente isso que está acontecendo comigo aqui em Moçambique.

Nos primeiros dias, a marrabenta era linda, encantadora, e ficava ainda melhor quando se conheciam as letras. Meses depois, quando se passa a conhecer as mais populares, elas se tornam horrível, parecem contos pornôs, e estragam a imagem da música moçambicana.

Percebi pela primeira vez esse lado negativo da música moçambicana com o famoso cantor Ziqo. Um amigo passava com o celular tocando no último volume uma música dele: Maboazuda. Como era difícil entender a letra, perguntei ao colega do que se tratava. “Está a falar da mulherada, brazuca!” Conforme ele foi cantando, me veio à cabeça a imagem do funk carioca, onde só se fala de mulher e de como o cantor “é o máximo.”

As músicas angolanas também fazem o maior sucesso por aqui. A mais ouvida pelo jovens é “Txuco-txuco”. Nessa, o português era um pouco mais compreensível, e pude entender o porquê do nome. Recuso-me a explicar.

Infelizmente, essas músicas acabam ofuscando o bom trabalho de outros artistas, que não tratam a mulher com desrespeito, nem a moral das pessoas. Acaba-se tendo a ideia de que em Moçambique só ouve música ruim, exatamente como acontece no Brasil.

Abaixo, a música “Txuco-txuco”, para quem tiver estômago:

Leia mais sobre o impacto negativo da música em Angola, em um artigo de Cláudio Bartolomeu, em Lip Light.

Aqui, um artigo de Carlos Serra, também sobre a música “Maboazuda”.

O Mosanblog falou mais sobre a música de Ziqo, e você pode conferir aqui. Aliás, às quintas-feiras, você pode ouvir as boas músicas moçambicanas e do resto da África no site Mosanblog.

Debate na aula de filosofia

O assunto da aula de filosofia era o amor. Explicações aqui, debates acolá. A aula fluía bem até que o professor me solta a seguinte: “Então, com as informações que obtivemos nesse debate, podemos concluir que os homossexuais são maníacos, e não pessoas que se amam.”

Comentei com o amigo do lado sobre a frase dita pelo professor. Como o momento não era adequado para conversas paralelas, fui obrigado a dizer para toda a sala o que cochichava. Quando anunciei a minha postura, iniciei um debate com o próprio professor.

— Se não é mania é o que, Guilherme? Amor? Duas pessoas de mesmo sexo podem se amar? Já sentiste amor por uma pessoa do mesmo sexo? Acho que não, né? — risos da turma toda.

O professor de filosofia parece não gostar de mim. As aulas são quase todas em forma de debate, e é nela que costumo mostrar a visão ocidental das coisas. Afinal, não sou só eu que devo aprender sobre uma cultura diferente da minha, mas eles também devem conhecer como vive o visitante que estão recebendo no seu país. Mas muitas vezes essa forma de pensar entra em rota de colisão com a do professor, o que deveria ser a intenção do debate. No entanto, o debate para este professor só ocorre quando ele dá a última palavra.

Sabendo que esse jeito de ver o homossexualismo não é exclusivo do professor, mas de quase todos moçambicanos, e também brasileiros, respondi a pergunta com cautela.

— No meu país, já é permitido casamento entre homossexuais. A vida de um casal homossexual é igual à nossa. Eles andam, falam, e pensam como os heterosexuais, eles também são pessoas. E é claro que eles amam, ninguém se casa sem de amar, ninguém vai ao altar apenas por ser maníaco. Seria impossível duas pessoas do mesmo sexo viverem juntas por muito tempo se não sentirem amor uma pela outra.

A sala ficou em silêncio. Era a primeira vez no ano que um aluno afrontava a opinião de um professor daquela forma. Mas o debate não havia acabado por ali.

— Duas pessoas do mesmo sexo não podem procriar, não podem ter filhos. Não podem constituir uma família. Deus não daria o poder de amar a uma pessoa que não consiga gerar filhos.

O silêncio da sala se quebrou. Todos aprovaram a idéia do professor e exigiram uma resposta minha: “Bate lá essa, brasileiro!” — urra o público.

— Acredito que não estamos debatendo uma questão religiosa. Se Deus não concedeu o direito de amar a uma pessoa, não sei qual seria o motivo de tê-la feito. Aliás, você ama o seu pai, ou um amigo querido, professor?

— De certeza, respondeu.

Mas parece que a minha pergunta não foi muito clara, e confudiu um pouco a cabeça do professor.

— Então isso prova que é possível amar uma pessoa do mesmo sexo que o seu — completei.

O professor e a sala olharam para mim com cara de rejeição. “Queres comparar um amor entre gays com um amor de pai e filho?”, alguém murmurou.

— Não foi o que eu disse. Só usei esse exemplo para contrariar a tese do professor de que dois homens não podem se amar. É claro que o amor de gays é diferente do amor paternal, mas se um tipo de amor existe, há possibilidades do outro existir também.

O homossexualismo realmente é um tema sério. A população não aceita facilmente a união de gays, e muitas pessoas que gostam de pessoas do sexo oposto têm medo de se revelar. Quando dou um abraço em um amigo, sempre vem um néscio para dizer: “Epa, já tás assim, brasileiro?”.

Aqui também tem esse problema

Estou fazendo muitas amizades aqui na África, por ser brasileiro e conhecer um mundo completamente diferente dos moçambicanos. Portanto, sou popular, e consegui isso sem fazer esforço. Ando com muitas pessoas, que me contam como vivem, como é o seu bairro e os hábitos da sua família. Consequentemente, chegam a mim informações sobre o comportamento dos jovens daqui.

Logo no começo da minha estada em Moçambique, um amigo veio desabafar um assunto sério comigo: “Poxa, brasileiro, estou bad [mal]. Não gramei [gostei] de usar suruma com Tentação.” A cara de “anh?” brotou em mim naturalmente.

— Que é isso? Novo tipo de sabão em pó?

— Nããão! Suruma é um tipo de “cigarro envenenado”. Deixa a malta meio maluca — disse “maluuuca”, com voz de drogado.
— Aaah… não seria maconha?

— Deve ser assim que vocês chamam essas cenas [coisas]. E Tensação é álcool puro.
— Álcool de limpeza? — perguntei com cara de nojo.
— Quase isso, brasileiro — ele respondeu com cara de safado.
— Ok, já entendi.

Recentemente, outro amigo contou que andou tendo problemas com a suruma e bebidas alcoólicas. Também disse que usar drogas e bebidas é muito comum entre os jovens daqui. Um garoto “limpo”, que fica só no suquinho, não tem o respeito dos amigos e nem da mulherada.

O problema ocorre quando há exagero, principalmente com a suruma. Toda hora na minha escola, aparece um aluno bêbado ou drogado.

A bebida Tentação já ganhou até um apelido: ton-tonto. Ela é vendida a dez meticais, cerca de vinte centavos de Real, o que facilita a vida de muitos africanos boêmios. O principal atrativo da Tentação é o alto teor de álcool. Não se sabe a quantidade exata, porque, o que a garrafa tem de álcool, não tem de informações sobre o produto. Mas dizem que parece que se está tomando álcool puro.

A suruma é o que chamamos de maconha. Não conheço muito sobre a forma como são produzidos os cigarros aqui. Só sei que a suruma é feita em casa pelos próprios consumidores, e que a erva Cannabis sativa é encontrada facilmente no mercado negro.

Quando pergunto se eles sabem dos efeitos das porcarias que usam, dizem que apenas sofrem com uma dorzinha de cabeça no dia seguinte, e mais nada. Experiente, já não tento mais mostrar que há outros efeitos posteriores.

Estudar na época colonial

Todo aluno reclama que estudar é uma droga, que os professores “vivem pegando no pé”, e sempre querem uma desculpa para perder o primeiro período, ou até mesmo para não ir à escola.

Há quarenta anos, quando Moçambique ainda era uma colônia portuguesa, os nativos tinham motivos de sobra para reclamar das suas escolas, isso quando tinham o privilégio de entrar numa.

Em uma aula de história, a professora Mafalda, conhecida na minha escola por falar de assuntos completamente alheios ao da aula, estava reclamando que os alunos de hoje em dia são uns vagabundos, adoram gazetar (cabular) aulas, e só pensam em fazer a cábula (cola) para as provas.

Disse que na época em que ela estudava, a vida não era moleza. Os pais a obrigavam a ter notas superiores a quinze (as notas aqui são de zero a vinte). “Meu pai dizia que se eu recebesse uma reclamação da diretora, iria me bater até eu virar branca”, contou ela, provocando os risos dos alunos. Tanta cobrança dos pais com os estudos devia-se ao fato de que eles tiveram que seguir uma série de exigências para que a menina pudesse estudar: deviam ter cursado a sétima classe, não podiam conviver com outros negros, nem beber ou andar mal-trajados, e, ainda por cima, tinham que ter o “título de assimilação”, isso é, virarem cidadãos portugueses, passando a ter os direitos e deveres de um português. Esse título tinha que ser comprado.

O pai da minha professora era assimilado. Isso lhe deu o direito de matricular a sua filha numa escola oficial. “Oficial!”, gritava ela, orgulhosa. Cadastrar um negro em uma escola oficial era muito difícil. Mesmo sendo assimilados, ainda tinham que subornar os diretores para que estes permitissem que seus filhos negros estudassem na escola oficial. A Josina Machel, onde eu estudo, era uma escola oficial, e foi onde estudou também o ex-presidente Joaquim Chissano. Negro, de pais assimilados, foi um dos poucos nativos que conseguiu cursar na que já era a escola mais importante do país.

Na sala de aula, era visível o racismo dos professores. Brancos de um lado, de preferência onde não batia sol, e negros do outro, com as piores carteiras da sala. Quando a professora precisava de voluntários para ir ao quadro, quase sempre os escolhidos eram os negros. Se eles tivessem dificuldades para terminar o exercício, ficariam ali até acertar. Mas se o branco dissesse que o giz estava a provocar-lhe espirros, ouviria um sorridente “podes sentar” da professora.

E se um negro conversasse em sala ou aprontasse alguma? Iria até o meio do mato, achar uma varinha fina para o professor castigá-lo. Se ele trouxesse uma varinha leve, levaria duas varadas.

Em geral, o corpo docente das escolas oficiais era formado por brancos, mas havia casos de professoras negras casadas com administradores (portugueses que vinham administrar as províncias ou fazer parte do governo). Mas não pense que isso a faria ter um pensamento menos racista do que os outros professores brancos. Ela era tão preconceituosa quanto os portugueses.

A professora Mafalda terminou dizendo que hoje não consegue mais passar na frente da sua antiga escola. Não porque teve que se submeter a humilhações para ter um estudo decente, mas porque foi lá dentro que ela assistiu ao seu pai sendo morto por um português grosso (bêbado), que provavelmente tinha motivos racistas para atirar.

Inevitavelmente, a professora chorou.

Queixada

Toda sexta-feria, dia que os moçambicanos consideram como um dia morto, em que poucos ousam trabalhar, e muitos professores não aparecem na escola, costumo combinar com os amigos de jogar bola nas aulas vagas.

Na última sexta-feira, percebi que o jogo estava um pouco mais pegado do que o normal. Na empolgação, também comecei a exagerar nas divididas, coisa inadequada para um branco fazer em Moçambique. Foi questão de tempo para um acidente acontecer: num daqueles famosos jogos de corpo, o outro jogador me deslocou e fez com que eu desse uma saborosa queixada numas madeiras que estavam ao lado do campo.

(Não comentarei o fato de largarem uma barra de madeira na beira da quadra de uma escola, senão terei que trocar o nome do blog para “Horrores da Josina”.)

Quando dei a queixada, lembrei do que meu tio me disse há pouco tempo: “Existem poucos médicos no país e os hospitais têm poucas condições de higiene. Acidentes simples podem custar um membro ou ainda a sua vida.”

A queixada só rendeu um machucado pequeno e um pouco de tontura. A partir de então, comecei a tomar mais cuidado com as divididas, pois se quebrasse uma perna, seria difícil achar um médico capaz de me sarar, e eu poderia ter a perna amputada.

Quando o assunto é saúde, tema que já tratei no blog, o Moçambique é um caos. Toda hora aparecem notícias de ratos e insetos circulando nos corredores e nos quartos de internação dos principais hospitais. Estes, aliás, são poucos e mais concentrados em volta das zonas populosas (cidades de Maputo e Beira, por exemplo), fazendo com que o restante das pessoas fique sem acesso a um tratamento minimamente decente. Isso faz com que elas recorram aos curandeiros e se tratem em casa.

Aqui, temos que caminhar em ruas e escadas “completamente adaptadas” para se quebrar uma perna, e jogar bola em quadras com barras de madeira ao lado da linha lateral. Quando nos acidentamos, mesmo que não seriamente, seremos tratados em cima de ninhos ratos, e talvez tenhamos que viver sem um membro, ou, pior ainda, nem sobrevivamos.

Realmente, manter-se inteiro em Moçambique é uma batalha, e devemos batalhar com cuidado, para não nos machucarmos.